A primeira vez que entrei num quartel de bombeiros voluntários tinha 15 anos. Pedi ao meu Pai se podia inscrever-me para ser bombeiro e acabámos por descobrir que havia uma escola de cadetes e infantes, onde prontamente decidi inscrever-me com todo o apoio dos meus pais. Foi um ano bastante atribulado e o quartel de bombeiros foi uma casa que me acolheu e deu a motivação necessária para ultrapassar a situação em que me encontrava.

Aos 17 anos inscrevi-me na recruta para bombeiro de 3ª. Mais tarde mudei de quartel e reaprendi outros valores, conheci outras pessoas e acabei por fazer mais serviço pré hospitalar.

Hoje já não faço parte de nenhuma corporação, mas guardo toda a aprendizagem desses anos que me acompanham no meu dia-a-dia e que de certa forma moldaram um pouco a minha personalidade:

Trabalhar em conjunto com todas as personalidades

Já fiz parte de várias dinâmicas, já estive em vários grupos e associações, mas nada resume melhor o espirito de equipa do que os Bombeiros. Da a recruta ao teatro de operações o espírito de equipa é muito importante e no fim traduz-se numa grande cumplicidade. Na recruta aprendes que se um errar todos erraram, assim como se todos colaborarem num único sentido tudo se torna mais forte e fluído. Ninguém fica para trás e numa situação real é preciso ter essa consciência, temos a nossa vida, a vida dos nossos colegas e de outras pessoas em causa. 
É preciso saber trabalhar em conjunto apesar de todas as personalidades diferentes que possam existir. Quando há um objectivo comum não há lados diferentes.

Organização e Liderança em situações de stress

Nos bombeiros aprendes a ser organizado e a ter método. Sobretudo quando passas pela fase da recruta onde existe bastante disciplina, e onde nos meus anos de aspirante era bastante exigente. A prontidão que deve ser exigida e a agilidade inerente tem de fazer parte de uma máquina bem óleada, para não haver erros.

Em certas alturas tens de ser a voz que coordena, tens de tomar decisões com base no teu parecer, na tua experiência. Tive de aprender a lidar com este tipo de situações sobretudo em situações de stress, onde aprendes a canalizar a adrenalina para algo bom como pensar mais rápido e manter a organização e método apesar das circunstâncias.

Comunicação clara

Aprendi a ser claro. Direto na minha comunicação. Provavelmente fiquei com esse traço demasiado marcado na minha personalidade. Comunicações via rádio ou mesmo pessoalmente num incidente têm de ser curtas, rápidas e claras.
O que faz com que trabalhes perfeitamente a tua habilidade de comunicação. Em emergência pré hospitalar é também muito importante saber ouvir e retirar a máxima informação do paciente. Não só pela observação mas também fazendo algumas questões que fazem parte da avaliação primária.

Treino duro, combate fácil

Algo que ouvi a minha recruta inteira. “Treino duro, combate fácil!” – Era sem dúvida o nosso lema. Posso aferir que a minha recruta da altura foi muito bem preparada fisicamente e psicologicamente, uma realidade que hoje é diferente em maior parte das recrutas.
Foram várias as vezes que soube qual era o limite do meu corpo. Aprendi a contornar isso, aprendi os meus limites e o meu potencial.
Sobretudo aprendi que o foco era a preparação para algo que poderia estar iminente. Aprendi a preparar-me para os meus desafios.

Técnicas de socorro

A aprendizagem  de técnicas de socorro deveria fazer parte do ensino obrigatório e ser algo continuo. Pode de facto fazer a diferença e diminuir a taxa de mortalidade, sobretudo em casos de falência cardio respiratória. Onde as manobras de reanimação aplicadas instantes depois têm uma taxa de eficácia mais elevada.

Já foram várias as vezes que ajudei pessoas na rua, por todos os motivos, inclusive acidentes de viação. É um dever cívico que aprendes quando és bombeiro, ajudar sempre o semelhante e teres a bagagem toda necessária para prestares prontamente este primeiro auxilio não tem preço.

Por menor que seja a situação, a confiança e segurança que consegues transmitir a alguém enquanto aguarda pela ambulância é de facto diferenciador.

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Hoje guardo com carinho algumas recordações deste tempo. Por vezes vem a nostalgia e uma voz interior que me chama de volta para vestir a farda e sentir a adrenalina assim que as campainhas tocam.

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